Cientistas descobrem como desligar a ansiedade

Novas descobertas podem ajudar neurocientistas a localizar alvos melhores para tratamentos contra a ansiedade. As pontas das longas extensões neuronais da amígdala (azul) entram em contato com os neurônios do hipocampo (verde). Essa via de comunicação ajuda a modular a ansiedade.

Os transtornos de ansiedade – que incluem o transtorno de estresse pós-traumático, fobias sociais e transtorno obsessivo-compulsivo – afetam mais de 18 milhões de brasileiros / ou mundial: 264 milhões de pessoas no mundo. Os tratamentos disponíveis atualmente, como por exemplo, os ansiolíticos, nem sempre são eficazes e geralmente apresentam efeitos colaterais indesejados.

Para desenvolver tratamentos melhores é necessária uma compreensão mais específica dos circuitos cerebrais que geram a ansiedade, afirma Kay Tye, Professora Assistente do Curso de Neurociência Cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“Os alvos onde os ansiolíticos atuais agem não são muito específicos. Nós ainda não sabemos exatamente quais são os alvos para a modulação do comportamento relacionado à ansiedade”, diz Tye.

Visando descobrir melhores alvos, Tye e seus colegas descobriram uma via de comunicação entre duas estruturas cerebrais – a amígdala e o hipocampo ventral – que parece controlar os níveis de ansiedade. Ao aumentar e diminuir o volume dessa comunicação em ratos de laboratório, os pesquisadores conseguiram elevar e reduzir os níveis de ansiedade.

Tanto o hipocampo (esquerdo), necessário para a formação da memória, como a amígdala (direita), envolvida na memória e no processamento de emoções, já foram associados à ansiedade. No entanto, suas formas de interação eram desconhecidas.

Para estudar essas interações, os pesquisadores recorreram à optogenética, técnica que permite ativar ou desativar a atividade elétrica dos neurônios usando a luz. Para esse estudo, os pesquisadores modificaram um conjunto de neurônios da amígdala basolateral (BLA) dos ratos, esses neurônios enviam longas projeções para as células do hipocampo ventral.

Os pesquisadores testaram os níveis de ansiedade dos ratos medindo quanto tempo eles estavam dispostos a permanecer em uma situação que normalmente os deixava ansiosos.

Ratos são naturalmente ansiosos em espaços abertos onde são alvos fáceis para predadores, então, quando colocados em áreas amplas, eles tendem a ficar nos cantos.

Quando os pesquisadores ativaram a conexão entre as células da amígdala e do hipocampo, os ratos passaram mais tempo nos cantos de um recinto, indicando, aparentemente, que estavam ansiosos. Porém, quando os pesquisadores impediram essa conexão, os ratos se tornaram mais aventureiros e dispostos a explorar espaços abertos. Não obstante, quando os ratos tiveram esse caminho religado, eles correram de volta à segurança das bordas.

Interações complexas

Em um estudo publicado em 2011, Tye descobriu que a ativação de um subconjunto diferente de neurônios na amígdala tinha o efeito oposto sobre a ansiedade em relação aos neurônios estudados no novo artigo, sugerindo que a ansiedade pode ser modulada por diferentes pontos convergentes.

“Os neurônios que parecem virtualmente indistinguíveis uns dos outros em uma única região podem se projetar para regiões diferentes e essas diferentes projeções podem ter efeitos totalmente opostos na ansiedade” – explica Tye – “A ansiedade é uma característica extremamente importante para a sobrevivência, então faz sentido querermos alguma redundância no sistema, alguns caminhos diferentes para modular a ansiedade”.

Este novo estudo – publicado na Neuron – contribui significativamente para a compreensão dos cientistas sobre os papéis da amígdala e do hipocampo na ansiedade e oferece orientações para a busca de novos alvos para os ansiolíticos, diz Joshua Gordon, Professor Associado do Curso de Psiquiatria da Universidade Columbia.

“O estudo descreve uma conexão específica no cérebro relacionada à ansiedade. Pode-se imaginar, então, ao identificar os componentes dessa conexão – proteínas sinápticas ou canais iônicos, por exemplo – que são particularmente importantes para a conectividade entre amígdala e hipocampo. Se tais componentes específicos puderem ser identificados, eles seriam possíveis alvos para novas drogas anti-ansiedade”, diz Gordon, que não fez parte da pesquisa.

Em estudos futuros, a equipe do MIT planeja investigar os efeitos da amígdala em outros alvos do hipocampo e do córtex pré-frontal, que também tem sido associado à ansiedade. Decifrar esses circuitos pode ser um passo importante para encontrar melhores medicamentos para tratar a ansiedade.

 

Texto traduzido e adaptado do site FutureTimeline.net.

Tradutora Susi Lopes.

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