É preciso uma mudança cultural já na infância para superar desigualdade, diz primeira diretora do ICMC da USP

Filha de pai taxista e mãe costureira, Maria Cristina Ferreira de Oliveira e suas quatro irmãs são doutoras e docentes em universidades públicas brasileiras. Para ela, meninas precisam ser expostas à outras possibilidades, que não às tipicamente associadas às mulheres.

A cerimônia que anunciou, na última sexta-feira (17/08), a nova direção do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), tinha tudo para ser mais um capítulo na história da instituição, não fosse pela escolha de sua representante. Pela primeira vez, em 46 anos, uma das principais instituições brasileiras na área de exatas terá uma mulher no comando.

Natural de São Carlos, interior de São Paulo, Maria Cristina Ferreira de Oliveira, 55, é graduada em Ciências da Computação pelo ICMC e doutora em Engenharia Eletrônica pela Universidade de Wales, no Reino Unido. Filha de pai taxista e mãe costureira, Cristina e suas quatro irmãs foram encorajadas a, desde cedo, se dedicar aos estudos e ingressar no ensino superior. O incentivo deu certo. Hoje, todas são doutoras e docentes em universidades públicas brasileiras.

CRISTINA É GRADUADA EM CIÊNCIAS DA COMPUTAÇÃO PELO ICMC E DOUTORA EM ENGENHARIA ELETRÔNICA PELA UNIVERSIDADE DE WALES, NO REINO UNIDO (FOTO: ARQUIVO PESSOAL) – FONTE: ÉPOCA NEGÓCIOS

A nomeação de Maria Cristina é extremamente simbólica, já que a desigualdade de gênero também é um traço do mundo acadêmico no país. Nos últimos cinco anos, só 9% dos alunos formados pelo ICMC eram mulheres. De todas as 42 unidades de ensino e pesquisa da USP, apenas 35% são lideradas por mulheres.

Em entrevista a Época NEGÓCIOS, Maria Cristina falou dos desafios da educação no Brasil e de sua gestão no ICMC até 2021. Para ela, a desigualdade de gênero no país é uma questão cultural que precisa ser superada já na primeira infância.

Leia a entrevista:

Para você, qual o significado da sua posse no ICMC, que pela primeira vez tem uma mulher na direção?
Para mim é uma missão a mais. Me sinto muito honrada. Fui aluna do ICMC e vivi aqui ao longo da minha carreira, mas o fato de ser uma mulher, na minha opinião, é uma questão totalmente secundária. Por outro lado, posso ser inspiração para outras jovens que também sonham em seguir esse caminho.

Como o ICMC espera incentivar mais mulheres a ingressar na área das ciências exatas?
Nós temos um grupo de extensão que promove eventos e palestras para atrair um maior número de mulheres para esse universo das ciências exatas. Mas é claro que, para uma mudança radical nesse cenário, é necessária uma mudança de cultura. Desde a primeira infância, pais e professores deveriam expor as meninas a outras possibilidades além das tipicamente associadas às mulheres.

Quais as suas perspectivas para a área da pesquisa no Brasil, que nas últimas semanas foi alvo de polêmicas com o anúncio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível superior (CAPES) sobre um possível corte de bolsas de estudos?
O financiamento de pesquisas no país é uma questão complicada e cheia de incertezas. Mas aqui no Estado de São Paulo, nós temos a vantagem de contar com uma agência adicional que financia pesquisadores baseados no estado, que é a FAPESP. Por isso estamos confiantes de que as pesquisas de boa qualidade vão continuar independente dessas dificuldades. Embora a crise econômica do país possa ter impactos sobre os recursos destinados a pesquisas em maior ou menos grau, estou otimista e tenho perspectivas de continuar contribuindo com o que a precisamos, que é gerar conhecimento.

Em quais aspectos a educação no Brasil precisa melhorar para que mais mulheres e estudantes de escolas públicas, assim como você, também possam ter acesso a um ensino superior de qualidade?
O grande desfio do Brasil é garantir o acesso à educação de qualidade para um número maior de pessoas, e principalmente nos locais onde a renda é menor. Mas a melhor política de acesso à universidade é preparar o aluno para que ele consiga ingressar na universidade. Hoje, perdemos muitos talentos que poderiam estar no ensino superior porque a escola não deu a preparação necessária. Ensino Fundamental e Médio de qualidade. Esse seria o melhor jeito de garantir que todos tenham oportunidades.

O que você espera realizar ao longo da sua gestão?
Precisamos trabalhar para garantir a qualidade dos cursos que já são bem avaliados na Capes. Além disso, a evasão de alunos em alguns cursos é uma questão preocupante e que precisamos enfrentar. A questão do empreendedorismo, a interação com o setor produtivo e a necessidade de contribuir com empresas e governos também é um ponto importante. Garantir a troca de conhecimento entre universidade e sociedade é um dos maiores desafios.

Artigo extraído e adaptado de Época Negócios.

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