Intolerância política: o desafio de conviver com as divergências

intolerância política

Até a intolerância tem o seu lado positivo. Não tolerar a corrupção, mentiras, injustiça, desigualdade, faz parte de um movimento em favor da sociedade. A falta de tolerância encontra o lado negro da força quando se fixa na negação da existência do outro, quando falta a capacidade de lidar com diferentes modos de pensar. Fã de História e política, o microempresário José Moacir Linhar, 60 anos, gosta de expor seu ponto de vista quando se trata de falar sobre o momento que o Brasil vive atualmente. “A política tem que ser discutida. Se a gente deixar que outras pessoas a discutam pela gente, vamos estar às margens (…) Muitas pessoas não discutem política e elas ficam reproduzindo frases de outras pessoas sem buscar conhecimento”, observa. Defender sua opinião, porém, nem sempre significa conquistar novos amigos. Pelo contrário. Por conta de divergências de pensamento político, Linhar conta que um conhecido chegou a ofendê-lo dentro de um supermercado e hoje desvia na rua para evitar conversa.

“Ele se achava no direito de dizer as coisas, virar as costas e não ouvir minha resposta. Tanto que na última vez, na nossa discussão, ele disse um monte de coisas, falou mal, me ofendeu, e eu disse para ele que jamais deveria dirigir a palavra a mim se não pudesse me ouvir”, recorda. Na Internet, o microempresário também já foi “excluído” por expressar suas ideias ou responder a postagens de outros usuários nas redes sociais. “Tem pessoas que agradecem, mas tem pessoas que ficam brabas. E eu já disse: se não gostar da minha opinião, se não compartilhar, se não quiser ter uma discussão limpa, então pode me excluir. Quando as pessoas só criticam e não apresentam solução, então é melhor que não façam parte do meu grupo”, opina.

Manifestantes pró (à direita) e contra (à esquerda) o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados (Juca Varella/Agência Brasil)

Brasil dividido em dois
De um lado, verde-amarelo, do outro, vermelho. Ou isso ou aquilo. Não há espaço “em cima do muro” ou para a ponderação entre argumentos. O cenário político se converteu em um Gre-Nal de opiniões. Para a auxiliar de engenharia de modelagem Salete Glaci Müller, 46 anos, um comentário em uma postagem sobre política em um perfil em uma rede social na Internet levou ao fim de uma amizade de longa data. Ela conta que uma amiga rompeu os laços que haviam entre as duas por não concordar com sua opinião. “Eu fiquei triste por ela e por mim”, lamenta, reforçando que havia apenas escrito o que pensava, sem ter usado qualquer xingamento. “Ofensa foi o que ela fez comigo (…) Se uma pessoa tem alguma coisa que não concorda comigo, acho que tem que vir conversar, não é humilhando, nem pisando”, reflete.

Para o professor Alfredo Culleton, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), este acirramento de ânimo presente no dia a dia dos brasileiros só mostra o quão profunda é a autocrítica que cada uma das partes envolvidas têm para fazer. “Mais cedo ou mais tarde, os partidos mais importantes desse País vão ter que sentar para encontrar solução, reconhecer o que faz de errado. Se não há garantias de que não vai perder autonomia, tem condições de fazer uma autocrítica”, acredita.

Adjetivações impedem o diálogo

As plataformas e aplicativos de redes sociais na Internet se transformaram em um dos principais fronts de discussão entre grupos opostos. Mas nem sempre as discussões se fixam na troca de ideias, na exposição de argumentos, e não são raras as vezes em que viram mera troca de insultos. “As pessoas não discutem, elas adjetivam. No momento em que elas dizem ‘petralha’ ou ‘coxinha’ elas pararam e interromperam o fluxo racional, elas negaram ao outro a capacidade de ser (…) Atrás de uma pessoa que não tolera sua opinião política, esbraveja e baba, existe alguém que sente um temor imenso que seu mundo, ou o que ele imagina que seja seu mundo, desabe”, reflete o historiador Leandro Karnal, professor Doutor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Classificar alguém com um adjetivo ou substantivo que se torna uma ofensa é uma tentativa de isolar esta pessoa e impedir o diálogo, acredita Karnal. “É um problema quando eu apenas adjetivo, quando saio da capacidade discursiva e retórica de ouvir”, completa, enfatizando a importância do debate para própria capacidade de raciocinar. “Nós devemos sempre debater, mas quando alguém arregalar os olhos, gesticular bravamente, salivar, afaste-se lentamente e concorde, porque nunca devemos tocar tambor para maluco dançar. Agora se não for isso, se alguém estiver expressando sua opinião, discuta com essa pessoa, mas lembre que não dá para salvar todo mundo da sua própria ignorância”, comenta.

POLÍTICA TAMBÉM SE APRENDE

O brasileiro em geral está mais politizado, mas falta ensino sobre política, acredita o professor Bruno Lima Rocha. “A sociedade brasileira faz política do jeito que dá, do jeito que ela recebe, do jeito que ela tem essa percepção, por símbolos, por associações imediatas, por muitos preconceitos, por elementos rasteiros, pela verve do humor e não é o humor que é sarcástico com o poder, mas o humor que também humilha, que reforça a humilhação ao humilhado”, considera.

Dentro deste cenário, o professor Leandro Karnal defende que a política seja debatida também dentro da sala de aula. “Não existe escola neutra. Seria bom que as escolas não fossem partidárias, mas elas sempre serão políticas. Não se pode demonizar a política. A política não é administração do mal, mas é a garantia do contrato social do bem. Demonizar a política como instrumento de resolução de um problema é um problema”, completa. Karnal diz que recusar o debate político dentro da escola já é uma opção política, que vai favorecer determinadas atitudes. “Não existe neutralidade. O que devo garantir sempre é a pluralidade da escola, a pluralidade de opções, mas conviver com o diferente e o contraditório é um desafio que a maior parte das pessoas não enfrenta bem”, conclui.

Reportagem | GABRIELA DA SILVA e KELLY BETINA
Artigo extraído e adaptado de Jornal NH.

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