Divertida Mente – Nossas emoções na “Sala de Controle”

Gerenciar nossas emoções, especialmente as negativas, não é um papel fácil na vida pessoal e nem tão pouco na profissional, mas, prestar mais atenção em nossas reações e conhecer os gatilhos que disparam esses sentimentos nos coloca em certa vantagem, uma vez que, sabendo quando cada um pode ganhar força, podemos agir estrategicamente para tirar o melhor proveito dessas situações, buscando o equilíbrio entre eles.

Dacher Keltner, especialista das emoções, foi consultor técnico do filme e afirma que o longa da Pixar inova em apresentar como as emoções interagem umas com as outras e como podem trabalhar em conjunto para resolver uma situação.

Tendemos a encarar de forma muito negativa a tristeza e a raiva, mas esses momentos podem também nos trazer grandes insights. A raiva, por exemplo, pode alimentar a criatividade, a culpa pode alimentar a busca por melhoria e a Tristeza tem um papel fundamental para de nos fazer encontrar a felicidade, como mostra o filme.

Selecionei esse texto da psicóloga Jessye Cantini, no qual traz uma excelente explicação sobre o filme! Boa leitura!

(Trailer do Filme Divertida Mente (Inside out)

“Divertida Mente aborda a mente de uma garotinha de 11 anos, Riley, que até o começo do longa teve uma vida estável ao lado de pais amorosos em Minessotta. Dentro da cabeça de Riley, dividiam a “sala de comando” a Alegria, a Tristeza, a Raiva, “a” Nojinho e o Medo – emoções básicas que todos nós temos, incluindo os pais de Riley. A Alegria era a emoção preponderante, mais ativa que as demais. No dia a dia de Riley são geradas memórias, na maioria das vezes alegres, que são armazenadas em “ilhas de personalidade”, como família, amizade, honestidade, bobeira/diversão e esporte. A história, no entanto, ocorre quando a menina passa por uma grande mudança em sua vida, gerando uma confusão na “sala de comando” e alterando a supremacia da Alegria – o que mais cedo ou mais tarde ocorre na vida de todos nós.

É interessante e não ocasional a escolha dos roteiristas pelas emoções que compõem a “sala de comando” de Riley. Medo, Alegria, Tristeza, Raiva e Nojo são emoções básicas humanas, ou seja, são reconhecidas por expressões faciais por todos os humanos, em qualquer lugar do planeta. Assim, pessoas das mais diversas culturas são capazes de compreender e empatizar com a simpática garotinha do filme.

O estudo sobre emoções básicas e expressões faciais vem desde Darwin, que dizia que a mente e o comportamento também são talhados pela seleção natural. Segundo ele, as emoções são inatas e servem para melhorar nossa adaptação ao mundo e aos outros. De fato, nossas emoções nos ajudam a avaliar as alternativas, oferecendo motivação para mudar ou fazer algo, e revelam nossas necessidades. Em Divertida Mente, a função das emoções é abordada de forma muito interessante. Todas elas estão ali por um motivo: a raiva aparece quando alguma injustiça é detectada, o nojo previne intoxicações (alimentares e sociais, diga-se de passagem), o medo previne lesões e garante a integridade física e psíquica, a alegria aparece nas conquistas e é um grande fator motivacional e a tristeza… Bom, vou deixar a definição da tristeza para quem for ver o filme, mas adianto que ela é bem importante!

A relação entre as emoções, que no filme são personagens, é outro ponto a favor do filme. A Alegria quer predominar, para que Riley seja mais feliz, mas a Tristeza insiste em aparecer em horas inoportunas. A tentativa da Alegria em manter a Tristeza longe chama a atenção, pois é algo que muitos de nós fazemos no nosso dia a dia: botamos um sorriso no rosto, dizemos para nós mesmos que está tudo bem e seguimos em frente, mesmo que no fundo isso não seja tão verdadeiro assim – ou seja, tendemos a invalidar nossa tristeza.

Mas se a tristeza é uma emoção básica e as emoções têm uma função importante para nossa adaptação, invalidar esse sentimento não parece muito razoável, certo? Quando a gente para e presta atenção no que nossas emoções dizem sobre a gente e para a gente, entendemos que elas apontam na direção de alguns valores importantes para a gente podem estar sendo atingidos pelos acontecimentos externos ou por determinados comportamentos nossos. Essa validação é importante pra gente poder fazer alguma coisa por nós mesmos!

Falando em valores, eles ganham destaque na arquitetura da mente de Riley. As tais “ilhas da personalidade” são valores pessoais da menina, ou seja, as coisas que são muito importantes para ela. Quando os valores são abalados, as emoções também o são e vice versa. E aí, os comportamentos começam a se tornar disfuncionais, levando as emoções a uma pane geral – a tal da apatia. A forma como o filme mostra isso para as crianças é simples e objetiva: apesar de quase todas as emoções tentarem muito, nenhuma delas conseguia operar o painel de comando!

É legal notar que esse painel que as emoções usam para administrar a mente das pessoas vai ficando complexo com o passar do tempo. No começo, Riley tinha um painel simples, em que só uma emoção era capaz de ocupar – daí a primazia da Alegria. Com o amadurecimento, o painel aumenta e as emoções comandam juntas, como pode ser observado nos pais de Riley e, mas para o fim do filme, na própria garotinha. Com o painel mais complexo, as memórias podem ser formadas por sentimentos mistos (ou seja, por mais de um sentimento por lembrança, dando vazão a toda uma nova gama de emoções).

Por fim, mas não menos importante, o filme não fala sobre, mas faz com que experimentemos empatia. Empatia é a habilidade que temos de nos colocar no lugar do outro e sentir e pensar como se fossemos ele. É impossível não empatizar com Riley, não se lembrar de algo que aconteceu em nossas vidas em que reagimos da forma assim ou assado como o próprio filme mostra (principalmente em relação às reações mais bruscas das emoções).

Para os interessados em psicologia, o filme é diversão pura. E para os profissionais, fica a dica para psicoeducação de pacientes sobre emoções, valores, aceitação, depressão e um monte de outras coisas. Fora a diversão de assistir cenas hilárias sobre corredores de memórias antigas, amigos imaginários da primeira infância, inconsciente e, é claro, sobre sonhos! Enfim, o Psicologia Explica de fato tenta explicar e recomenda Divertida Mente.”

Artigo publicado originalmente em Psicologia Explica

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